Demanda contratada: como ler na conta e quanto custa errar o valor
Resposta rápida
Demanda contratada é a potência em kW que o seu negócio reserva com a distribuidora e paga todo mês, use ou não use. Só quem é Grupo A (atendido acima de 2,3 kV) paga por ela. Contratar acima do necessário é dinheiro jogado fora todo mês; contratar abaixo gera ultrapassagem, e o que passa de 105% do contratado é cobrado com tarifa dobrada.
Na prática: com tarifa de demanda de R$ 30/kW, uma empresa que contratou 100 kW e usa 70 kW joga fora R$ 900 por mês, ou R$ 10.800 por ano, sem receber nada em troca.
Onde ela aparece na sua conta
Abra a fatura e procure por linhas em kW, não em kWh. Se existirem, você é Grupo A e paga demanda. Os nomes variam por distribuidora, mas você vai encontrar alguma combinação destes:
- Demanda contratada (kW) — o que você reservou em contrato.
- Demanda medida ou registrada (kW) — o maior pico de 15 minutos que o medidor viu no mês.
- Demanda faturada (kW) — o que efetivamente entrou na conta.
- Demanda de ultrapassagem (kW) — se essa linha tem valor, você está pagando multa.
Se a fatura só traz consumo em kWh, você é Grupo B e não paga demanda — nesse caso o que vale olhar é a tarifa efetiva, explicada em como ler a conta de luz linha por linha.
Quanto custa errar, nos dois sentidos
Simulação com demanda contratada de 100 kW e tarifa de demanda de R$ 30/kW:
| Demanda medida | O que acontece | Fatura de demanda | Diferença |
|---|---|---|---|
| 70 kW | Paga a contratada mesmo sem usar | R$ 3.000 | R$ 900 desperdiçados |
| 100 kW | Contrato casado com o uso | R$ 3.000 | referência |
| 104 kW | Dentro da tolerância de 5% | R$ 3.120 | sem multa |
| 120 kW | 15 kW acima da tolerância, cobrados em dobro | R$ 4.050 | R$ 1.050 a mais |
Repare na assimetria: subdimensionar em 20 kW custou R$ 1.050 no mês; superdimensionar em 30 kW custou R$ 900 todo mês, silenciosamente. A multa dói e chama atenção. O desperdício não dói e por isso dura anos.
Como descobrir a demanda certa
- Junte 12 faturas. Demanda é sazonal: o pico do verão de um comércio com ar-condicionado não se parece com o de junho. Decidir com 2 meses de dado é como decidir no escuro.
- Anote a demanda medida de cada mês. Não a contratada, não a faturada. A medida.
- Pegue o maior pico recorrente, não o maior pico absoluto. Se um mês isolado registrou 118 kW por causa de um evento que não se repete, ele não deve definir o contrato do ano inteiro.
- Some uma margem de 5% a 10%. A tolerância regulatória de 5% já é um colchão; a margem extra cobre crescimento previsto.
- Peça a alteração por escrito e guarde o protocolo. Pedidos de redução costumam ter carência contratual, então quanto antes você pedir, antes o relógio começa a correr.
Um detalhe que muda tudo: reduzir o pico vale mais que renegociar o contrato. Se o compressor da câmara fria, o chuveiro do vestiário e o forno ligam no mesmo horário, você cria um pico artificial e paga por ele o ano inteiro. Escalonar partidas em 15 minutos já derruba a demanda medida sem investir nada.
Azul ou Verde: a modalidade também mexe nisso
| Verde | Azul | |
|---|---|---|
| Demanda contratada | Uma única, para o dia todo | Duas: ponta e fora de ponta |
| Energia na ponta | Tarifa bem mais cara | Tarifa mais cara, mas menos punitiva |
| Combina com | Quem consegue reduzir bastante o uso no horário de ponta | Quem precisa operar na ponta com carga alta |
Comércio que fecha às 18h costuma se dar bem na Verde. Padaria, restaurante e academia, que trabalham exatamente no horário de ponta, muitas vezes não. Vale simular as duas com os seus 12 meses de dado antes de pedir troca — a modalidade errada custa mais caro que a demanda errada.
Quando NÃO vale a pena mexer
- Quando a diferença é pequena. Uma folga de 5 a 8 kW sobre a demanda medida é margem de segurança, não desperdício. Cortar até o osso troca R$ 200 de economia por risco de multa de R$ 1.000.
- Quando você vai crescer nos próximos 12 meses. Contratou baixo, comprou equipamento novo, estourou. Se há máquina nova ou expansão no horizonte, dimensione para o cenário previsto.
- Quando o problema é fator de potência, não demanda. São linhas diferentes da fatura e têm soluções diferentes. Mexer na demanda não resolve multa de reativo.
- Quando você é Grupo B. Não existe demanda contratada para você. Se um consultor ofereceu “revisão de demanda” e sua conta só tem kWh, ele não olhou a sua fatura.
Perguntas frequentes
Pago demanda mesmo com o comércio fechado o mês inteiro?
Sim. A demanda contratada é uma reserva de capacidade da rede, não um consumo. Ela é cobrada mesmo com consumo zero, e é por isso que negócio sazonal precisa olhar esse número com atenção redobrada.
Qual é a tolerância antes da multa?
A régua padrão é 5% acima da demanda contratada. O que ultrapassar esse limite entra como demanda de ultrapassagem, com tarifa dobrada. Confirme o percentual aplicável no seu contrato, porque ele varia conforme o nível de tensão.
Energia solar reduz a demanda contratada?
Reduz o consumo em kWh, mas quase não reduz a demanda em kW, porque o pico pode acontecer num momento sem sol ou com nuvem. Quem instala solar esperando cortar a conta de demanda costuma se frustrar. A calculadora de energia solar ajuda a separar as duas economias.
Bateria ajuda a cortar a demanda?
Tecnicamente sim, é a aplicação chamada corte de pico: a bateria assume a carga nos minutos de pico e derruba a demanda medida. A conta só fecha quando a economia de demanda é grande e recorrente. Vale conferir a lógica em bateria residencial vale a pena no Brasil antes de pedir orçamento.
Com que frequência posso pedir alteração?
Depende do contrato de uso do sistema de distribuição assinado com a sua distribuidora, que normalmente prevê carência entre alterações. Peça as condições por escrito e guarde o protocolo do pedido.
Dois casos em que a demanda decide antes do investimento: energia solar para empresa, que não compensa a parcela de demanda, e a climatização de loja, cuja partida simultânea cria o pico que vira custo fixo.
Premissas da simulação: demanda contratada de 100 kW; tarifa de demanda de R$ 30/kW, valor ilustrativo que varia por distribuidora, subgrupo e revisão tarifária; tolerância de 5% e ultrapassagem cobrada com tarifa dobrada sobre o excedente, em modelo simplificado. A regra aplicável está na REN ANEEL nº 1.000/2021 e no seu contrato de uso do sistema de distribuição. Confirme os valores na sua fatura antes de decidir.
